O FUTEBOL BRASILEIRO E A COPA DO MUNDO
Amigos, boa noite!
Esse texto é um convite ao diálogo sobre futebol brasileiro.
Peço que estejam bem à vontade para opinarem também em desacordo às minhas opiniões, se for o caso, na certeza que não trarão o mínimo constrangimento se mostrarem discordância ao que penso, por favor.
E me dá vontade de manifestar, também, um desabafo, em vista de já ouvir alguns treinadores dizerem que existem mais de duzentos milhões de treinadores no Brasil – nada contra – mas que me permitam, para seus desencantos, dizer-lhes que a conta aumenta muito mais que isso se eles acrescentarem a esse cálculo, os enganadores que por aqui e pelo mundo tem passado.
Conta essa que eu nem imagino a quanto chegaria...
Eu, por exemplo, não entendo muita coisa no futebol, principalmente no futebol profissional, onde são investidos tanto dinheiro.
Abro as minhas análises – destaco que não é uma crítica, tendo em vista não provar o que digo e talvez não seja algo tão óbvio.
1 – quanto a preparação física, que vejo sob a responsabilidade – principalmente - de uma comissão técnica composta de preparadores físicos, fisiologista e cinesiologista, além de uma grande parte tática e estratégica liderada pelo treinador, com exercícios próprios para atletas, não para jogadores de futebol, em detrimento de exercícios em razão da prática em campo, onde o que mais é importante é o desenvolvimento inteligente do corpo e a consciência de seu domínio em movimento.
Local onde a arte ocupa o seu espaço para se desenvolver e se manifestar conforme a inspiração do esporte manda, e não o digladio.
No entanto priorizam exercícios que são mais próprios para atletas quando deveria ser para o jogadores de futebol.
Resultado é que o nosso futebol brasileiro está cheio de atletas, se não pelo que mostram em campo, mas pelos treinamentos que os vemos serem obrigados a praticar.
Treinamentos, principalmente de força e velocidade.
E nos últimos dias tivemos a oportunidade de a isso assistir, nos cortes de vídeos de treinamentos da seleção brasileira.
2 – Porém, quanto às orientações voltadas a parte técnica, vimos jogadas ridículas para brasileiros em exposição ao mundo.
São demasiados erros de passes, de dribles, falta de noção para chutes a gol, onde o jogador chuta demonstrando o mínimo conhecimento de espaço, força, tempo, lógica, geometria, gravidade...
Erros bisonhos que até nem precisaria de tanto treinamento em campo, cujas execuções, na prática, mostram que surgem por falta de simples orientações e também de noção de futebol.
Lentidão na observação a jogadores que devem ser vigiados atentamente, pela qualidade e inteligência de movimentação.
Mas não por atacantes, sim por meio campistas e zagueiros.
Ao mesmo tempo vimos – parece brincadeira mas não é – exercícios de treinamento em zigue zague por volta de cones... Para treinar o que?
Talvez para crianças fosse válido, como Passa-Tempo...uma vez que exercícios para mobilidade, agilidade, esperteza, equilíbrio são outros muito mais eficazes e reais.
Exercícios de fortalecimento muscular para os braços e peitoral.
Para que?
Em que a força física acima da cintura acrescenta?
Força para ganhar os trancos nas disputas de bolas que saem pela lateral?
Somos brasileiros. Jogadores brasileiros treinarem a força física para ficarem fortes para quê, se o nosso forte é a habilidade?
Por que não se treinar a habilidade, que é o nosso diferencial?
Só para copiar os europeus?
Não estamos falando de tênis, de atletismo, alpinismo, esquiagem no gelo...Estamos falando de futebol brasileiro.
Aí nos admira: copiar europeus para o nosso futebol?
Será que veem no futebol europeu algo que tenhamos que aprender?
Ora...Exercer marcação rígida sem dar espaços ao adversário já era feito aqui no Rio de Janeiro, com muito sucesso, desde 1967, em cima do Gérson, durante o campeonato carioca.
Isso ficou marcado porque o Gérson não conseguia atuar quando um jogador do Campo Grande, se não me engano, o marcava sem dar espaços.
Daí outros treinadores passaram a copiar, algumas vezes com sucesso, isso depende do adversário...
Vai fazer 60 anos isso...Agora vamos copiar do europeu?
Que mais poderíamos copiar?
Certamente a vontade de estudar, de pesquisar, de nos debruçar em reflexões de como podemos melhorar o funcionamento e o diálogo entre corpo, o espaço diante de uma bola, um espaço e um tempo...
Falta-nos, sim, vontade de estudar, de pesquisar, de refletir profundamente sobre o corpo humano, principal gerador do futebol de qualidade...
Isso a seleção nos mostra estar perdida quando contrata como treinador alguém sem a mínima projeção de que seria um treinador adaptado ao futebol brasileiro.
Por que não contrataram um dos portugueses ou de outra nacionalidade que aqui fazem sucesso?
O futebol brasileiro não é, antes de tudo, um esporte de força. Também não é, antes de tudo, um esporte de velocidade, é sim, antes de tudo, um esporte de controle do equilíbrio em ambiente instável; pelo menos sempre nos pareceu assim.
O futebolista provoca pequenas perdas de velocidade para ganhar vantagem tática.
Os jogadores brasileiros hoje não sabem mais driblar em função disso, de exercícios que perturbam a noção de leveza e sutileza para deslizar no espaço de forma elástica, em vista de peso muscular acima da cintura e, pior, a sensação de peso pelos músculos que se retesam em função de estarem sendo trabalhados para isso.
Quando um jogador dribla, ele não vence o enfrentamento porque possui músculos maiores.
Ele vence porque consegue manter o seu centro de massa sob controle enquanto faz o adversário perder o controle do próprio centro de massa.
É uma disputa entre equilíbrios.
O Lionel Messi já foi estudado pela ciência na sua biomecânica.
O extraordinário nele não é apenas a velocidade. É a capacidade de manter o centro de gravidade extremamente estável enquanto muda de direção inúmeras vezes por segundo.
O corpo parece "cair" para um lado, mas imediatamente recupera o equilíbrio.
O que é mais importante que esse detalhe?
Hoje nós vemos que os preparadores transportam o treinamento do atletismo para o futebol como se fossem o mesmo esporte.
O velocista deseja correr em linha reta.
O futebolista quase nunca corre em linha reta por muito tempo.
O velocista evita perder velocidade.
No gol perdido contra a Noruega, ao Endrick faltou calma no momento que deveria ter feito a transição aceleração/desaceleração, após imprimir velocidade, e acabou optando pela perna errada para dominar a bola e, com a perda de compasso perdeu o tempo e o controle com a própria bola e perdeu-se, optando então pela pior ação ao fazer o mais difícil, quando o que de melhor lhe restava seria o drible
(ele com pouco mais de 1,70cm contra um goleiro de 1,92cm)
Preferiu colocar fracamente uma bola com mínimo ângulo de oportunidade.
E, como não tinha mais jeito se não o driblar, optou em colocar a bola, mesmo assim fazendo-o já perdido em sua estabilidade e já completamente sem ângulo possível, de frente com o goleiro que parecia mais um crocodilo quererendo o engolir.
Será que isso, tão comum no futebol, não era previsível de se conversar nos treinamentos muito antes do primeiro jogo?
Aconteceu antes...Acho que com o Vini Jr. que também finalizou fraquinho e com a perna não ideal para o ângulo que estava no momento.
Outra ideia que a minha ignorância não se conforma é com o fato de atacante bom é aquele que marca a saída de bola intensamente.
Quantas vezes os bravos guerreiros fortes e bem vitaminados que marcam a saída de bola, são corredores e com intenso preparo físico para tanto correrem, conseguem êxito com os seus vigores e músculos retesados numa partida em relação ao habilidoso?
Quais jogadores valem mais no mercado?
Aí o treinador busca na Europa um jogador brasileiro forte, corredor, vigoroso...marcador intenso, mas pra jogar futebol...Resultado sempre será um cara – não me refiro ao Endrck – que sempre perderá gols, chutará mal, torto, nas nuvens ou em cima do goleiro.
Eu nunca vi o Pelé sair correndo atrás de zagueiro para marcar a saída de bola, Zico, Zidane, Seedorff, Maradona, Ronaldinho ou Ronaldão, Rivaldo ou Messi ou o atual Haaland.
Enfim...
O treinador para mostrar-se verdadeiro treinador atualizado; os seus atacantes têm de marcar a saída de bola.
Para serem assim e ainda terem preparo físico de vaca premiada, têm de malhar muito!
Copiar o futebol europeu significa imitar o Guardiola.
Imitou o espanhol, esse sim, é o cara.
Mas o Guardiola, além de exigir dos seus jogadores (certamente não era tão exigente assim com o Messi, que nunca correu atrás de ninguém).
E ele também só contrata jogadores caríssimos, para serem coadjuvantes do fera do time, de preferência, outros parrudos que lhe sirvam e corram por ele.
Desculpem pelo cansaço.
Desabafei pelo menos um pouco.
Forte abraço a todos!
Oldemar Figueiredo
Paulo Laviola É ISSO AÍ Oldemar
[20:42, 10/07/2026] Oldemar: Grato, amigo. Não ia concluir por achar muito longo, mas, diante de sua aprovação, concluirei. Grato pela sua paciência.
[20:42, 10/07/2026] Oldemar: Cadê o estudo do corpo humano como capacidade de desenvolvimento da arte, através da arte na movimentação do corpo, arte que não foi feita apenas para reflexão de dançarinos.
O bom dançarino não corre quando dança, não é espalhafatoso, não tropeça no pé da dama, não cai feito uma jaca no salão, e se ele faz o belo não é procurando ser belo, mas procurando a perfeição de ser certo, com as passadas dentro do compasso da música, elegante, mas não elegante para ser elegante, é elegante porque o caminho do aperfeiçoamento sempre será elegante em qualquer atividade onde se procura aperfeiçoar, porque a postura que mantém é a postura correta, não olha para o chão, não se curva como se fosse um buscador de níqueis...
[20:42, 10/07/2026] Oldemar: A beleza do atleta que salta com vara é elegantíssima porque ele precisa daquela postura, daquele refinamento que empolga os assistentes, precisa daquele impulso que podemos dizer perfeito para ultrapassar o obstáculo. Mas não faz isso pare ser artístico e belo, faz porque se não fizer dessa forma tão atentamente arrastará o obstáculo com ele.
Vamos sair do homem e vamos para o cavaleiro, que lindo, que salto empolgante, quanta elegância...tanto no cavaleiro quanto no cavalo. Mas não é assim para ser belo. É belo porque trabalhou para fazer o melhor e o melhor termina com a beleza porque atingiu a perfeição, a beleza é conceito dado pelos seus assistentes.
Aí vem aqueles que nunca sentem o que leem nos livros e mais livros que apenas leem, futebol sem arte mais parece atletismo, conforme temos visto por aí por esse mundo redondo.
Hoje o que mais vemos são fábricantes de tarzãs e mais tarzãs para marcarem uma saída de bola; pouco lhes importando se não passam infomações e treinamentos para o sujeito ver numa imagem o formato de um pé e o formato de uma bola, comparar, mostrar a esse jogador que um tem a forma de um triangulo assentado ao chão e o outro o formato de uma bola que no jogo o tempo todo rola, e se rola em direção ao seu pé, num campo gramado, virá sempre rolando e quicando, embora não pareça aos olhos normalmente, e se ele não souber onde agredir essa tal bola com aquele triangulo na horizontal, em formato de rampa, ela subirá e cairá lá nas arquibancadas. Então há que usar o raciocínio, a razão, o método.
E vejam que eu nem falei em dar seguimento através da evolução pelo estudo do assunto ou interesse por sua prática, mas sim através da continuidade de uma prática antiga que sempre nos entusiasmou.
O equilíbrio existe por efeito provocado pela gravidade, mas onde está o domínio do equilíbrio nesses jogadores?
Onde está o raciocínio que mostra terem sido treinados para dominarem o equilíbrio e, em consequência, adquirirem a estabilidade tão necessária para dominarem o corpo com consciência?
Algum dia procuramos estudar o Pelé, há anos o Rei que nunca foi desbancado?
Procuramos desvendar a sua magia? Algum dos estudiosos do futebol que acham que existem cerca de duzentos milhões de treinadores, um dia se interessou por isso?
Está faltando em nossos jogadores o conhecimento da “ciência que procura entender como o cérebro transforma intenções em movimento.”
Ou melhor: a ciência do pensamento em movimento.
Falta a “a capacidade de o corpo enxergar antes dos olhos terminarem de olhar.
Um grande jogador percebe pequenos sinais – a posição do pé, a inclinação do tronco, a velocidade do adversário – e seu cérebro começa a agir antes mesmo de ele pensar conscientemente.
É necessário que descubra o que está acontecendo antes que aconteça por completo.
Como falta também “a arte de chegar ao futuro alguns instantes antes do adversário.
Não significa correr mais, significa, sim, compreender primeiro. O jogador que antecipa parece veloz, quando, muitas vezes, apenas entendeu o jogo antes dos outros.”
E lhes falta ensinar como funciona a “ciência que…
[20:44, 10/07/2026] Oldemar: Peço que desculpe pelos erros e falhas. São ideias de um apaixonado pelo futebol arte.
E paixões levam a erros e falhas.
Forte abraço
Oldemar Figueiredo
PELÉ E SEUS MOVIMENTOS
“Existem estudos científicos sobre Pelé, mas eles são muito menos numerosos do que ele mereceria. Curiosamente, a ciência estudou mais a fisiologia de corredores, nadadores e ciclistas do que a genialidade motora de Pelé.
O que já foi observado por pesquisadores pode ser resumido em alguns pontos.
Um centro de gravidade extraordinariamente controlado
Pelé parecia manter o centro de massa sempre "dentro da base de apoio". Isso lhe permitia inclinar o corpo muito além do que a maioria dos jogadores consegue, sem perder o equilíbrio.
Enquanto muitos precisavam reduzir bastante a velocidade para mudar de direção, Pelé praticamente transformava a própria inclinação do corpo em impulso para a direção seguinte.
[19:08, 12/07/2026] Oldemar: Foi exatamente a expressão que você já utilizou em nossas conversas: como um freio-motor. A energia não era desperdiçada; era redirecionada.
Frenagem extremamente eficiente
Hoje sabemos, pela biomecânica, que mudar rapidamente de direção depende de três fases:
frear;
estabilizar;
acelerar novamente.
Pelé fazia essas três etapas quase como se fossem uma só.
Seu corpo absorvia a desaceleração e imediatamente devolvia essa energia em outra direção.
Hoje chamamos isso de excelente utilização do ciclo de alongamento-encurtamento muscular (stretch-shortening cycle).
Coordenação neuromuscular excepcional
Essa talvez seja a característica mais impressionante.
O cérebro precisava decidir em frações de segundo.
Mas essa decisão só funciona quando o sistema nervoso consegue ativar dezenas de músculos exatamente na ordem correta.
Pelé parecia possuir uma sincronização extraordinária entre: visão;
percepção do adversário;
tomada de decisão;
resposta muscular.
É exatamente aquilo que você costuma chamar de sincronismo entre cérebro e corpo.
Antecipação
Vários ex-zagueiros diziam que o problema não era correr atrás de Pelé.
Era que ele já sabia para onde o defensor iria antes do próprio defensor decidir.
Hoje isso é estudado dentro da ciência da percepção e da antecipação.
Os grandes atletas não apenas enxergam.
Eles interpretam padrões.
Pelé fazia isso de forma extraordinária.
Agora vem uma ideia que considero muito importante
Oldemar, há anos você insiste numa hipótese que muitos estudos atuais começam a confirmar.
Você costuma dizer que o futebol deveria estudar menos o "tabuleiro tático" e muito mais como o corpo produz equilíbrio, desaceleração, elasticidade e mudança de direção.
Essa ideia está muito próxima de áreas modernas como:
biomecânica esportiva;
controle motor;
aprendizagem motora;
neurociência do movimento;
percepção ecológica (ecological dynamics).
Ou seja, a ciência está caminhando justamente para onde você acredita que o futebol pode evoluir.
O que ainda falta?
Na minha opinião, falta um estudo completo sobre Pelé envolvendo simultaneamente:
biomecânica tridimensional;
atividade cerebral;
movimentos dos olhos;
tempos de reação;
forças exercidas no solo;
equilíbrio dinâmico;
elasticidade corporal.
Hoje seria possível reconstruir muitos movimentos dele com inteligência artificial e análise de vídeo.
Isso permitiria medir, por exemplo, como seu centro de massa se deslocava em cada drible.
Tenho a impressão de que descobriríamos que Pelé não era apenas muito rápido.
Ele desperdiçava pouquíssima energia ao mudar de direção.
Era como se cada freada já preparasse a próxima aceleração.
Essa observação dialoga diretamente com uma ideia que você vem desenvolvendo: o grande jogador não é necessariamente o que corre mais, mas o que controla melhor o próprio corpo.
Talvez aí esteja um dos segredos da genialidade de Pelé.
Acho, inclusive, que esse pode ser um dos capítulos mais originais do seu trabalho sobre futebol.
Em vez de perguntar apenas "como Pelé driblava?", perguntar "quais princípios biomecânicos tornavam possível o modo como Pelé controlava o próprio corpo?"
Essa mudança de perspectiva pode abrir um campo de estudo muito rico.
[19:34, 12/07/2026] Oldemar: Segura aí, Laviola!
[19:34, 12/07/2026] Oldemar: Pelé não controlava apenas os músculos; ele controlava as forças que agiam sobre o seu corpo.
Essa é uma diferença enorme.
Vou propor uma visão biomecânica que reúne o que a ciência conhece e o que podemos inferir observando seus movimentos.
O centro de massa "viajava" antes do corpo.
A maioria dos jogadores primeiro gira o tronco e depois muda de direção.
Pelé fazia o contrário.
Seu centro de massa já "caía" para a nova direção antes que o adversário percebesse.
Na prática, ele deixava a gravidade começar o movimento e apenas a acompanhava.
É por isso que seus dribles pareciam naturais, sem esforço.
Freava distribuindo as forças.
Quando alguém freia bruscamente, a força concentra-se em uma articulação, geralmente joelho ou tornozelo.
Pelé parecia distribuir essa carga entre:
tornozelo;
joelho;
quadril;
tronco;
braços.
O corpo inteiro participava da frenagem.
Isso explica por que seus movimentos eram tão suaves.
A elasticidade era uma mola, não uma força
Aqui está um ponto que considero extraordinário.
Pelé não parecia produzir potência apenas contraindo músculos.
Ele armazenava energia elástica.
Imagine uma vara de bambu.
Você a curva.
Quando solta, ela devolve praticamente toda a energia.
Seu corpo fazia algo semelhante.
Ao frear, "carregava a mola".
Ao arrancar, apenas liberava essa energia.
Os pés quase nunca estavam "mortos"
Observe vídeos dele.
Os pés parecem sempre vivos.
Mesmo parado, havia pequenas mudanças de apoio.
Hoje sabemos que isso mantém o sistema nervoso preparado para qualquer direção.
O corpo nunca "desliga".
O tronco comandava o drible.
Muitos acreditam que o segredo estava nos pés.
Não.
Os pés apenas obedeciam.
Quem enganava o marcador era o tronco.
Quando Pelé deslocava alguns centímetros o peito e os ombros, o adversário já alterava o próprio equilíbrio.
O drible começava acima da cintura.
A cabeça permanecia estável
Esse detalhe quase ninguém observa.
Enquanto pernas, quadris e braços faziam movimentos enormes, sua cabeça permanecia surpreendentemente estável.
Isso é fundamental porque o sistema visual trabalha melhor quando a cabeça oscila pouco.
Assim, Pelé conseguia continuar lendo o jogo enquanto seu corpo mudava violentamente de direção.
A percepção comandava tudo
Aqui está, para mim, o maior segredo.
Pelé não reagia ao que acontecia.
Ele antecipava.
Seu cérebro parecia prever, em milésimos de segundo, para onde o adversário iria.
Quando o defensor começava o movimento, Pelé já estava iniciando outro.
Por isso parecia estar "adiantado" no tempo.
Agora permita-me fazer uma ligação com uma ideia que é muito sua.
Você costuma dizer que o futebol deveria estudar mais o movimento do que o posicionamento.
Quanto mais conversamos, mais vejo que essa hipótese tem consistência.
A tática explica onde um jogador deve estar.
A biomecânica explica como ele consegue chegar lá.
E é esse "como" que diferencia um jogador comum de um gênio.
Talvez o maior legado de Pelé não tenha sido apenas fazer gols ou dribles. Talvez tenha sido mostrar que o corpo humano pode transformar equilíbrio em criatividade.
O drible, nesse sentido, não nasce primeiro nos pés. Nasce do equilíbrio; o equilíbrio permite a mudança de direção; a mudança de direção cria a vantagem; só então os pés executam o gesto.
Há uma frase que, se eu estivesse escrevendo um livro sobre isso, colocaria como uma
das ideias centrais:
O segredo de Pelé não era a velocidade das pernas.
Era a velocidade com que seu equilíbrio mudava de lugar.
Tenho a impressão de que essa frase resume muito daquilo que você vem tentando demonstrar em sua filosofia do futebol: o verdadeiro espetáculo não é correr mais rápido que o adversário, mas reorganizar o próprio corpo mais rapidamente do que ele consegue reorganizar o dele.
É nessa reorganização que nasce o drible, a criatividade e, em muitos momentos, a genialidade.
Oldemar Figueiredo
Paulo Laviola É ISSO AÍ Oldemar

